Secretário de São Paulo, Renato Feder, diz que educação é política de Estado, não de governo
Um dos principais gestores da área no Brasil, o secretário de Educação do Estado de São Paulo, Renato Feder, será um dos palestrantes do fórum de debates instituído pela Fundação Índigo e pelo União Brasil em busca de soluções para os principais problemas do país. No próximo dia 02 de junho, em Salvador, Feder participará do S.O.S Bahia – Caminhos para Mudar a Educação do Estado, juntamente com o presidente da fundação, ACM Neto, e o deputado federal e ex-ministro da Educação, Mendonça Filho.
Renato Feder abriu espaço na agenda complexa de secretário de Educação do estado mais rico do país para falar sobre os desafios do poder público na formação de alunos e investimentos em infraestrutura escolar. A seguir, Feder fala sobre as principais medidas adotadas em sua gestão, os exemplos de São Paulo para o Brasil e o impacto da tecnologia nas salas de aula.
Secretário, se existe o consenso entre os formuladores de políticas públicas de que a Educação é fundamental para o desenvolvimento do país, o que há de errado com a educação no Brasil?
A educação é, sem dúvida, uma prioridade no discurso de todos, mas o grande desafio ainda é transformar esse consenso em compromisso permanente de gestão. O problema da educação é continuidade, foco técnico e prioridade real. Os estados e municípios que decidiram tratar a educação como política de Estado — e não apenas de governo — vêm conseguindo avançar de forma consistente nos indicadores.
Educação exige planejamento de longo prazo, acompanhamento constante e coragem para enfrentar problemas estruturais. Não basta construir escola, é preciso garantir qualidade. Isso passa por infraestrutura adequada, valorização e formação continuada dos professores, gestão eficiente e, principalmente, por tornar a escola um espaço atrativo para os jovens. Hoje, um dos maiores desafios é manter o estudante engajado, especialmente no Ensino Médio, disputando atenção com redes sociais, necessidade de trabalhar e tantas outras dificuldades da vida real.
Eu respeito diferentes linhas pedagógicas, mas, no meu entendimento e pelo que vi em vários lugares do mundo, os melhores resultados aparecem quando existe foco claro em aprendizagem, domínio de conteúdo, acompanhamento do desempenho e presença efetiva do professor em sala de aula. A escola precisa preparar o aluno para a vida, mas garantir que ele saiba ler, interpretar, escrever e resolver problemas com qualidade.
Em São Paulo, por exemplo, começamos uma política muito forte de permanência do aluno na escola. Investimos em busca ativa para combater evasão e faltas, e os resultados já aparecem. Tivemos um aumento de 10 pontos percentuais na frequência média entre 2024 e 2025. Isso significa cerca de 300 mil alunos a mais dentro das salas de aula todos os dias, saindo de 80% para 90% de frequência média na rede estadual.
Além disso, criamos iniciativas que ajudam o jovem a enxergar perspectiva no estudo. O Provão Paulista Seriado aproximou os estudantes das universidades públicas; ampliamos o Ensino Técnico, que hoje atende 231 mil alunos e deve chegar a 350 mil no próximo ano; criamos o programa Prontos pro Mundo, que leva mil estudantes por ano para intercâmbio no exterior; e seguimos firmes no compromisso com a alfabetização na idade certa, que atualmente soma 77%, mas para a qual estipulamos uma meta de 90% até o fim deste ano.
Outro ponto importante é entender que educação não melhora com soluções genéricas. Quando a gestão acompanha dados, entende a realidade local e toma decisões técnicas, os resultados aparecem. A educação brasileira tem potencial enorme, mas precisa de continuidade, compromisso e da compreensão de que o impacto das decisões de hoje será visto daqui a muitos anos.
De que forma a experiência da Educação no Estado de São Paulo pode contribuir para a melhoria do ensino em estados como a Bahia, bem como no restante do país?
A experiência de São Paulo mostra que é possível avançar quando existe gestão baseada em dados, metas claras e foco na aprendizagem. Não existe fórmula mágica, mas existem práticas que funcionam e podem ser adaptadas às realidades de cada estado.
Quando chegamos à Secretaria, muitas decisões eram tomadas sem informações, era praticamente um tiro no escuro, estávamos às cegas. Hoje temos um sistema de BI (Business Intelligence) extremamente importante, que permite acompanhar frequência, desempenho e necessidades específicas de cada escola. Isso muda completamente a capacidade de gestão, porque possibilita corrigir rotas rapidamente e atuar onde o problema realmente está.
São Paulo é praticamente um retrato do Brasil. Temos regiões urbanas, rurais, áreas vulneráveis, cidades muito desenvolvidas e outras com enormes desafios sociais. Isso nos ensinou que a política pública precisa respeitar as diferenças regionais. Não adianta tratar todas as escolas da mesma forma. A personalização das estratégias e o olhar atento para cada realidade fazem muita diferença.
Outro ponto fundamental é o fortalecimento do trabalho em regime de colaboração com os municípios. Educação não se faz de maneira isolada. O aluno não pertence à rede estadual ou municipal, ele pertence ao sistema educacional. Quando estado e municípios trabalham juntos — compartilhando metas, formação de professores, materiais pedagógicos e acompanhamento — os resultados aparecem com mais rapidez.
Também aprendemos que o jovem precisa enxergar sentido na escola. Por isso investimos fortemente em Ensino Técnico, tecnologia, intercâmbio, ampliação de oportunidades e aproximação com o mercado de trabalho e o ensino superior. A escola precisa preparar o aluno não apenas para provas, mas para a vida, para o emprego e para o exercício da cidadania.
Acredito que o Brasil tem muito a ganhar quando os estados compartilham experiências bem-sucedidas. Cada estado tem suas particularidades, mas boas práticas podem inspirar políticas públicas mais eficientes em todo o país.
Com o avanço da inteligência artificial no dia a dia a população, qual caminho a educação tende a seguir nos médio e longo prazos? O sr. acredita que a tecnologia dentro da escola é um caminho sem volta?
Sem dúvida, a tecnologia na vida cotidiana e, consequentemente, na educação é um caminho sem volta. A inteligência artificial já faz parte do cotidiano dos alunos e da sociedade, e a escola não pode ignorar essa transformação. O desafio agora não é decidir se a tecnologia estará presente, mas como utilizá-la de forma responsável, inteligente e pedagógica.
Ao mesmo tempo, é fundamental deixar algo muito claro: nenhuma tecnologia substitui o professor. O professor continua sendo o centro do processo educacional. Ele é quem inspira, orienta, desenvolve pensamento crítico, acolhe o aluno e transforma informação em conhecimento. A tecnologia é ferramenta; o protagonismo continua sendo humano.
A IA pode ajudar muito no processo de aprendizagem. Hoje já temos plataformas de matemática, redação, inglês e acompanhamento pedagógico que permitem personalizar o ensino, identificar dificuldades mais rapidamente e apoiar o trabalho em sala de aula. Uma ferramenta de IA pode, por exemplo, corrigir uma redação em segundos, mas a análise pedagógica, o contexto e o olhar humano são e continuarão sendo responsabilidade do professor.
Outro ponto importante é preparar os alunos para usar a tecnologia com consciência. Não basta apenas oferecer acesso. É preciso ensinar pensamento crítico, responsabilidade digital, ética e capacidade de avaliar informações. A escola terá um papel ainda mais importante na formação cidadã diante do excesso de conteúdo e da velocidade das transformações tecnológicas.
No médio e longo prazo, acredito que a educação caminhará para um modelo mais personalizado, mais conectado às competências do século XXI e mais integrado à tecnologia. Mas isso só dará certo se vier acompanhado de valorização docente, formação adequada para os professores e redução das desigualdades de acesso. O maior risco não é a tecnologia avançar; é parte dos jovens ficar para trás por não ter acesso ou preparo para utilizá-la da maneira correta.
A tecnologia amplia possibilidades, mas quem transforma vidas continua sendo o professor dentro da sala de aula.
Clique aqui e faça sua inscrição no S.O.S Bahia Educação – Caminhos para mudar a educação do estado.