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Por Que Ambientalistas Precisam Entender Economia

Uma das questões mais complicadas para os defensores da livre iniciativa são as preocupações ambientais, especialmente as de grande escala, como as alterações climáticas. O que torna os argumentos ambientalistas mais sofisticados tão desafiantes e interessantes é que muitas vezes eles usam idéias e termos que são freqüentemente utilizados para descrever sistemas econômicos.

Por exemplo, ambos os sistemas naturais e sociais são evolutivos. A natureza, como a sociedade, é uma ordem emergente (ou o que Hayek chamou de “espontânea”). Eu descrevi os mercados como “ecossistemas epistemológicos”. E tanto a ecologia quanto a economia compartilham o mesmo prefixo. Mais interessante ainda, os ambientalistas costumam utilizar palavras como “recursos”, “escassez” e “eficiência”, que também ouvimos nas discussões sobre mercados e economia em geral.

Devido a essas semelhanças, os defensores do livre mercado e aqueles preocupados com a interferência humana no mundo natural devem ouvir uns aos outros com mais cuidado do que costumam fazer. Recentemente tive a oportunidade de me envolver especificamente nesse tipo de conversa e isso me fez pensar sobre algumas das fontes das falhas de comunicação e sobre o que a economia pode adicionar à maneira como os ambientalistas muitas vezes vêem essas questões. O que se segue são alguns pensamentos relacionados a esse tema.

Economistas e Ambientalistas

Uma idéia é que os defensores dos mercados devem se inspirar mais nas analogias sobre os ecossistemas naturais quando conversam com ambientalistas. Os mercados funcionam como a evolução darwiniana, pelo menos por analogia. Empreendedorismo e inovação são os equivalentes econômicos de “mutações”, e lucro e perda são os equivalentes econômicos de “seleção natural”.

Assim como o processo biológico leva à adaptação das espécies aos seus ambientes, porque as mutações que melhoram a sobrevivência serão passadas às gerações futuras, os processos econômicos levam os seres humanos a melhor “adaptarem-se ao seu ambiente social” ao reorganizar o mundo físico de forma a criar mais valor.

Ambientalistas reconhecem como esses tipos de sistemas adaptativos complexos criam ordem sem um designer no mundo natural, e notar como a mesma descrição se aplica aos mercados pode ser uma maneira de gerar conversas mais interessantes e produtivas, para não mencionar uma melhor apreciação dos mercados.

Assim como os economistas, os ambientalistas se preocupam com recursos escassos e eficiência. O que muitas vezes nos divide é como entendemos esses termos. Por exemplo, ambientalistas tendem a pensar em recursos como objetos físicos que são produtos da natureza, como “recursos naturais”. Eles às vezes ignoram o recurso criado pelo homem, que é o capital, e a combinação da natureza e da humanidade, que é o recurso que chamamos de trabalho.

Como exemplo desta confusão, considere o argumento que eu encontrei recentemente de que as formas de energia verde, como a energia solar, são desejáveis porque usam menos recursos naturais escassos e porque geram milhões de empregos.

Minha resposta como economista é aplaudir qualquer forma de produzir algo que, tudo mais constante, utilize menos recursos naturais. Se eu posso gerar a mesma quantidade de energia usando menos carvão e sem utilizar mais de qualquer outra coisa, isso é bom. Mas observe o resto da afirmação: a energia limpa também requer mais do recurso escasso que é o trabalho humano. É isso que significa “gerar empregos” neste contexto. Há muita evidência de que a energia limpa requer muito mais trabalho do que os combustíveis fósseis ou outras formas baseadas em carbono.

Ambientalistas entendem corretamente que é bom usar menos de um recurso natural escasso, mas parecem esquecer dessa idéia quando se trata de trabalho humano.

Vale a pena?

Poupar recursos escassos significa que temos que considerar quanto trabalho será necessário para produzir uma determinada quantidade de energia. Assim como utilizar mais recursos naturais do que necessário significa abrir mão das suas finalidades alternativas, a criação de empregos que podem ser desnecessários para produzir a energia que precisamos significa que estamos abrindo mão de outras coisas que poderíamos ter tido

Parte dessa confusão é resultado dos diferentes significados de “eficiência”. Ambientalistas muitas vezes se preocupam com “eficiência energética” ou “eficiência de recursos”. Um exemplo pode ser a quilometragem do gás. Os carros são mais eficientes se conseguirem mais quilômetros por galão.

Para um economista, no entanto, a eficiência relevante é “eficiência econômica”, ou “vale a pena?”

Nós temos a tecnologia para criar carros muito mais eficientes, mas se eles não podem ser construídos por menos de, digamos, US$100.000, a maioria das pessoas vai dizer que não vale a pena. Esses carros podem ser mais eficientes tecnologicamente, mas economicamente eles são menos eficientes.

Em outras palavras, esses carros estariam utilizando recursos valiosos para produzir algo que consideramos menos valioso do que as alternativas que esses recursos poderiam produzir.

Entendendo Escassez

Este ponto é também onde a palavra “escassez” entra em jogo. A impressão é de que ambientalistas tratam “escassez” como um sinônimo de “raridade”. Uma coisa é escassa se houver pouca quantidade numérica. Mas para os economistas, a escassez não é uma questão de um estoque físico, mas uma relação entre o estoque físico e o desejo humano para o recurso.

Por exemplo, até onde eu sei, existe apenas uma bola de baseball autografada por Steve Horwitz no mundo. Há, pelo contrário, muitas bolas de baseball autografadas por Derek Jeter. Apesar de ser maior em quantidade, as bolas autografadas por Jeter são muito mais escassas (refletido pelo seu valor muito mais elevado) porque ninguém quer uma bola autografada por Horwitz, mas muitas pessoas querem uma bola autografada por Jeter.

O que os mercados nos permitem fazer é ter um indicador desta escassez – os preços. O fato de que as pessoas pagam muito mais pela bola autografada por Jeter do que pela autografada por Horwitz nos diz que a bola de Jeter é mais escassa e mais valiosa. Os preços fornecem conhecimento e incentivos sobre a escassez de bens, incluindo os recursos naturais, e permite que nós os utilizemos apenas para aquelas coisas cujo valor para as pessoas é alto o suficiente para justificá-lo.

Os mercados permitem que façamos tais comparações de valor e, assim, ir além da eficiência tecnológica para atingir a eficiência econômica. Ou seja, os mercados nos forçam a pensar sobre custo.

Os ambientalistas mais sofisticados entendem isso em algum nível, razão pela qual as melhores propostas para lidar com a mudança climática são aquelas que tentam, em certa medida, alistar o sistema de preços no processo.

Multas do Governo Não Resolverão o Problema

Impostos e taxas sobre o carbono, por exemplo, tentam incluir os custos externos da energia baseada em carbono nas decisões tomadas pelos produtores de energia. Essas propostas, assim, frequentemente tentam retornar aos consumidores as receitas arrecadadas para ajudá-los a pagar os preços mais elevados da energia causada pelo imposto.

Essas propostas são melhores do que a antiga abordagem reguladora de comando e controle, mas sofrem dois problemas que os economistas estão posicionados de forma única para destacar.
Em primeiro lugar, encontrar o imposto/taxa/preço certo não é algo simples. Sabemos que os preços de mercado são o resultado emergente do que Mises chamou de “barganha de mercado” (higgling of the markets). Mises também destacou que as mudanças que observamos nos preços são o fim visível de uma cadeia de causalidade que começa profundamente na mente humana. O que faz com que os preços de mercado funcionem é que eles são o resultado dos processos de tomada de decisão das pessoas nesses mercados, arriscando seus próprios recursos e implantando seus próprios conhecimentos.

Os preços ou taxas burocraticamente fixados não têm os mesmos incentivos poderosos para um comportamento cuidadoso, e jamais captarão tanto conhecimento quanto os preços reais do mercado. Assim, batalhas políticas sobre esses impostos e taxas são inevitáveis e, com tais batalhas, perde-se qualquer semelhança à racionalidade econômica.

E isso traz o segundo ponto que os economistas podem apresentar aos ambientalistas: falha de mercado não é uma condição suficiente para a intervenção governamental. Propostas de imposto sobre o carbono, como qualquer outra política, podem parecer ótimas em teoria, mas nós devemos sempre nos perguntar se os políticos podem fazer e se irão fazer o que aqueles propondo a política projetaram.

Por exemplo, suponha que um imposto sobre o carbono arrecadou bilhões em receita que deveria ser reservada para redistribuição para os lares americanos. Dado o histórico da Previdência Social, nós realmente iríamos esperar que os políticos não tentassem usar essa receita para satisfazer interesses especiais poderosos ou para outros propósitos que poderiam proporcionar mais votos por dólar do que um cheque de dividendos para as famílias dos EUA?

Economistas podem lembrar os ambientalistas de que, mesmo com os mercados sendo confusos (assim como a natureza é), a intervenção governamental é muitas vezes pior. Nós precisamos comparar a realidade de dois processos imperfeitos, e o fato de que os mercados são menos que perfeitos não é, por si só, uma justificativa para a intervenção do governo.

Dizem que as coisas mais interessantes acontecem nas fronteiras onde as culturas se chocam. Isso é verdade sobre as fronteiras entre as ordens espontâneas de mercados e ecossistemas.

Embora eu tenha focado no que os ambientalistas podem aprender com os economistas, o aprendizado é uma via de mão dupla. Descobrir como desenhar os limites quando duas ordens emergentes interagem da forma como a natureza e economia fazem requer um pensamento cuidadoso e um diálogo paciente. Eu espero que ambos os grupos estejam à altura do desafio.

Extraído de: https://fee.org/articles/why-environmentalists-need-the-free-market/

Tradução: Tuana Neves

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