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O socialismo e o nacionalismo são ideias muito, mas muito ruins. Se você gosta delas, talvez aprecie sua combinação, o nacional socialismo

Entre o Grande Terremoto de Lisboa e o ano revolucionário de 1848, as classes falantes de europeus tiveram três grandes ideias. Uma era muito, muito boa. As outras duas eram muito, muito ruins. Nós ainda estamos pagando por elas.

A boa ideia, que fluía das canetas de membros do clero como Voltaire, Thomas Paine, Mary Wollstonecraft, e acima de tudo, do abençoado Adam Smith, é o que Smith descreveu em 1776 como a ideia chocante de “permitir que cada homem [ou mulher, querido] busque seu próprio interesse a sua própria maneira, no plano liberal da igualdade, da liberdade, e da justiça”.

É fato que o verdadeiro liberalismo levou muito tempo. “Todos os homens são criados iguais” foi escrito por um Thomas Jefferson que manteve em escravidão a maioria de seus próprios filhos com Sally Hemings, para não mencionar a própria Sally. Até mesmo seu co-autor, Ben Franklin, chegou a possuir escravos. Em 1775, o escritor inglês Samuel Johnson tinha amplas razões para dar uma alfinetada nos americanos desde Londres: “Como é que ouvimos os gritos mais altos por liberdade entre os condutores de negros?”

Mas aqueles gritos liberais ecoaram e tiveram força, amplificados pela repetida vergonha durante dois séculos de negar a escravos, aprendizes, mulheres, imigrantes, anarquistas, socialistas, comunistas, okies, nisei, negros, chicanos, gays, manifestantes contra a guerra do Vietnã, suspeitos criminais, pessoas com deficiência, transgêneros, ex-presidiários, usuários de drogas, fumantes e cidadãos do distrito federal sua própria igualdade, liberdade e justiça.

Os frutos do novo liberalismo, uma vez capaz de enfrentar as duas más ideias (wait for it), foram deslumbrantes. O liberalismo, unicamente na história, fez com que as massas de pessoas comuns se tornassem ousadas, ousadas para testar no mercado suas idéias de como melhorar o mundo. Olhe ao seu redor para as centenas de melhoramentos que daí resultaram: dos mercados de ações aos rolamentos de aço, da penicilina ao vidro de chapa.

A ousadia dos plebeus em busca dos próprios interesses resultou no Grande Enriquecimento – de 1800 até o presente, a Europa e a Anglosfera aumentaram sua renda per capita real, corrigida pela inflação, por um fator, numa estimativa conservadora, de cerca de 30. Isso equivale, turma, a 3 000%. A glória da Grécia, a grandeza de Roma, da China Sung e do Império Mugal podem ter conseguido um crescimento de 100% ao longo de coisa de um século, algo como 6 dólares ao dia – mas eventualmente todos caíram de volta para os 3 dólares ao dia, típicos desde que nossa espécie vivia em cavernas.

E agora, apesar dos melhores esforços dos governos e das agências internacionais para estragar as coisas, o liberalismo ainda está se espalhando para o mundo, de Hong Kong a Botswana.

Isso é espantosamente bom para os pobres. Some os frutos da ação iliberal do governo – a redistribuição, o licenciamento, as tarifas, o zoneamento, as licenças de construção, os subsídios agrícolas, as restrições à imigração, a ajuda externa, a política industrial, a tributação de um terço da produção apreendida pelo estado – e todos juntos talvez possam, se você suspender sua descrença econômica, aumentar o rendimento dos povos mais pobres por, digamos, 30%, e fazer isso apenas uma vez. Nada comparável aos 3 000% atribuíveis ao liberalismo, que continuam a crescer sem fim à vista.

As duas ideias ruins de 1755–1848 foram o nacionalismo e o socialismo. Se você gosta delas, talvez você aprecie sua combinação, introduzida em 1922 e ainda à venda na Europa e implícita na popularidade de Donald Trump: o nacional socialismo.

O nacionalismo, quando primeiramente teorizado no início do século XIX, vinha entrelaçado com o movimento Romântico, apesar de que na Inglaterra ele já existia há centenas de anos. Foi ele que inspirou o nacionalismo reativo na França, na Escócia e eventualmente na Irlanda. Na Itália, sob a forma do campanilismo, ou orgulho da sua cidade, era ainda mais antigo. (Mesmo em conversa com estrangeiros, os italianos respondem, quando perguntados de onde são, “Florença” ou “Roma” ou até “Sicília”. Nunca “Itália”.)

O ruim do nacionalismo, além da sua coerção coletiva intrínseca, é que inspira o conflito. As 800 bases americanas ao redor do mundo mantêm a paz ao travar uma guerra sem fim, bombardeando civis para proteger os americanos de não-ameaças do outro lado do mundo. Em julho de 2016, nós da anglosfera “celebramos”, se é que essa é a palavra, o centenário da Batalha de Somme, fruto do nacionalismo, cuja conclusão depois de três meses e meio custou aos aliados e aos poderes centrais, juntos, mais de um milhão de casualidades, a maioria desmembrada pela artilharia. Obrigado pelo seu serviço.

A outra ideia ruim da época foi o socialismo, que também pode ser conectado ao Romantismo, e a um Cristianismo secularizado, com sua caridade de Sermão da Montanha e uma visão apocalíptica da história. É tudo uma peça só – do planejamento central na Venezuela às licenças de construção urbanas. Um comunista é um socialista com pressa e um socialista é um regulador com pressa e um regulador é um político corrupto com pressa.

O ruim do socialismo, além da sua coerção coletiva intrínseca, é que leva à pobreza. Mesmo nas suas formas mais puras – dentro dos limites de uma doce família, digamos – ele mata a iniciativa e encoraja o parasitismo. O Apóstolo Paulo, não famoso por ser um liberal, repreendeu os tessalonicenses: “Assim ordenamos: Se alguém não quiser trabalhar, também não coma. Pois ouvimos que alguns de vocês estão ociosos; em vez de trabalhar, andam se intrometendo na vida alheia.” Boa, Apóstolo Paulo.

As formas não tão doces de socialismo, especialmente aquelas emparelhadas com o nacionalismo, são muito piores. Estão aí Coreia do Norte, Cuba e outros paraísos de trabalhadores. Como diz a piada, “sob o capitalismo, o homem explora o homem; sob o socialismo é o contrário.”

O que fazer? Reviver o liberalismo, como nos sucessos impressionantes de China e Índia. Tomar de volta a palavra liberal da esquerda americana. Eles podem ficar com progressivo, se não se importarem de serem associados com o movimento Progressista do início do século XX e seu entusiasmo eugênico pela esterilização forçada e por usar o salário mínimo para expulsar imigrantes, negros e mulheres do mercado de trabalho. E nós devemos persuadir nossos amigos da direita a pararem de usar a palavra para atacar as pessoas que não pertencem ao seu clubinho.

Leia Adam Smith, pausadamente – não apenas a prudente Riqueza das Nações, mas sua comedida irmã A Teoria dos Sentimentos Morais. E volte em espírito para o amanhecer de 1776, quando a ideia radical não era nacionalismo ou socialismo ou nacional socialismo, mas “o sistema óbvio e simples de liberdade natural” que permite que todos os homens e mulheres busquem seus interesses a sua própria maneira.

Era uma ideia estranha, mas muito, muito boa. Ainda é.

Deirdre McCloskey é professora emérita de economia, história, inglês e comunicação na Universidade de Illinois em Chicago e autora do recém publicado Bourgeois Equality: How Ideas, Not Capital or Institutions, Enriched the World.

Artigo originalmente publicado em Reason.com

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